JIMMY CORRIGAN


Uma boa notícia veiculada na Zero Hora desta terça-feira. Para os fãs de quadrinhos, claro. Está chegando ao Brasil as histórias de Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo. A criação de Chris Ware foi publicada pela Companhia das Letras e vai custar R$ 49.

Aliás, qualquer semelhança com Stewie Griffin não é mera coincidência. Confesso que não sei quem puxou a quem… Abaixo o texto de Zero Hora, escrito por Ticiano Osório.

À sombra do pai fantasma
Chega ao Brasil a aclamada “Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo”, do americano Chris Ware

// À primeira vista, Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo pode fazer você se sentir nem um pouco esperto. Para começar, a volumosa história em quadrinhos é precedida por um texto com “instruções gerais”, no qual o autor, o americano Chris Ware, admite – com ironia ou não – que essa obra é “difícil” ou “impenetrável”. Há inclusive um teste para verificar nossa aptidão à leitura, acompanhado por um diagrama incompreensível (ou eu é que sou obtuso?).

Virando a página, surge outro diagrama, agora colorido, lotado de desenhos diminutos que circundam um globo terrestre, todos eles interligados em uma ordem, outra vez, confusa. De um lado e de outro, aparecem referências (“para fins de incentivo à aquisição”) ao livro na imprensa dos EUA, onde foi publicado em 2000, reunindo material editado originalmente nos anos 1990 na revista ACME Novelty. A Time, por exemplo, diz que, “em troca de seu esforço, esse livro assombroso e penetrante mudará sua forma de ver o mundo”. O Wall Street Journal compara a “leitura atordoante” e a “poesia densa” ao Ulisses de James Joyce. (Falando nisso, há comentários desairosos. Ted Rall, do site slate.com: “A obra de Ware é o equivalente em HQ ao Ulisses de Joyce – ninguém leu, e quem leu sabe que é uma droga, mas com certeza fica bonito na estante”.)

Todo esse intróito – tanto em Jimmy Corrigan quanto neste texto – ajuda a preparar o leitor para a complexidade e o ritmo da história propriamente dita. Que é a seguinte: Jimmy Corrigan é um sujeito de 36 anos solitário e tímido, que tem na agenda telefônica só o número da mãe e que, um dia, recebe o convite para visitar o pai a quem nunca conheceu, uma viagem na qual embarca com o paralisante medo da rejeição. A jornada de Jimmy é marcada por momentos constrangedores e episódios de devaneio, e se desdobra em flashbacks de sua infância e em uma outra narrativa, ambientada à época da Feira Mundial de Chicago (1893). Aqui o protagonista é outro Jimmy, também um garoto retraído e sonhador – que vem a ser o avô do Jimmy do presente –, de situação familiar análoga à do personagem principal: quem está ausente é a mãe, e quem oprime (terrivelmente) é o pai.

Chris Ware conta essas desventuras com uma prosa carregada de lirismo e melancolia, adornada por um estilo gráfico único, e, sinceramente, indescritível (corra à livraria mais próxima para, pelo menos, folhear a obra). Bebendo dos quadrinhos do início do século 20, da arquitetura, do design publicitário, repetindo cenas e desconstruindo quadros, Ware faz poemas visuais que falam alto.

Não que a fruição de uma obra de arte esteja necessariamente condicionada à biografia do autor, mas, no caso de Jimmy Corrigan, essa história sobre negligência paterna ganha um senhor peso quando sabemos que reflete aspectos pessoais de Ware. Ele assume, em um pós-escrito franco e comovedor, que criou o personagem para lidar com seus próprios problemas relacionados a um pai desconhecido – tanto por fora quanto por dentro, Jimmy Corrigan reafirma o poder transformador da imaginação (para não dizer catártico). Ware ainda revela: também ele acabou sendo procurado pelo pai quando adulto, à época em que já produzia o material compilado neste volume. É a vida imitando a arte que imitou a vida.

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