REPORTAGENS REMASTERIZADAS 07 – TRABALHO NOTURNO


O blog ficou desatualizado esta semana que passou. A explicação é que madruguei todos os dias para ir trabalhar. Não é nada fácil esse horário de acordar 4 da manhã para trabalhar… E pior, janeiro todo vai ser assim.

O engraçado é que há 5 anos atrás escrevi uma reportagem sobre isso (e o pior, duas das fontes eram de rádio), e hoje poderia ser tema dessa mesma reportagem que vocês conferem abaixo…

Notívagos pela necessidade
O trabalho noturno não é bem visto pelas pessoas, mas tem gente que prefere trabalhar no período em que os outros dormem

Chega a noite e a maioria dos cidadãos vai para a casa descansar ao lado da família. Outros mal chegam e já vão encontrar os amigos em algum bar para botar o papo em dia, isto se não saem direto do trabalho para a balada. Um grupo menor, no entanto, faz o caminho inverso. Quando a maioria descansa ou se diverte, eles começam a sua jornada de trabalho.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera trabalho noturno todo serviço realizado num período de sete horas que compreenda o período entre meia noite e cinco horas da manhã. Geralmente o trabalhador noturno deve possuir remuneração extra para exercer a sua atividade. A OIT recomenda que os trabalhadores tenham proteção a saúde e a sua vida social e familiar resguardada. O empregado em um trabalho à noite tem direito a exames médicos gratuitos cedidos pela empresa caso seja solicitado.

Sobre a questão de saúde, pesquisa da Escola Paulista de Medicina mostra que as pessoas submetidas a condições de sono não regulares podem ser alvos mais fáceis de mazelas como depressão, impotência, alterações no humor, entre outros. A capacidade laboral do indivíduo também fica afetada, podendo comprometer até quase 14% desta capacidade. O trabalhador noturno é o maior prejudicado, já que seu ritmo cicardiano é diferente do normal.

As pessoas, porém por diversos motivos, precisam trabalhar neste período, seja pela falta de opções no mercado, por um acréscimo na renda ou por uma posição melhor dentro de uma empresa.

“Foram dois meses de zumbi total, eu passava o dia inteiro mal”

A estudante de Ciências Sociais da UFRGS, Amanda dos Santos, trabalhou durante seis meses como atendente de bar em duas das mais badaladas casas noturnas de Porto Alegre, a Touch e a Liquid. Ela chegou a conciliar duas atividades ao mesmo tempo nos dois primeiros meses. “Eu estava precisando de um dinheiro a mais e nos primeiros dois meses eu levei os dois trabalhos juntos, no dia e na noite”. Amanda entrava para trabalhar às 19 horas e saía apenas às 7 da manhã no dia seguinte. “De quinta para sexta eu tomava banho e ia direto para o clube, trabalhava o dia inteiro no clube, saía às seis da tarde e ia trabalhar de novo, virava a noite trabalhando e daí eu só podia dormir no sábado. Ficava dois dias sem dormir”, conta. “Foram dois meses de zumbi total, eu passava o dia inteiro mal, dormia duas horas e ia trabalhar de novo”.

A estudante afirma que a parte social começou a ser afetada. Ela dividia o apartamento com outros amigos da faculdade, mas não tinha tempo para eles. “A gente organizava muita festinha lá em casa e eu parei de participar de todas as coisas, o pessoal já não me via mais, porque quando eu estava em casa, estava dormindo”. Com isso, Amanda começou a criar maiores vínculos com os colegas de trabalho, que viviam a mesma situação que ela. “Para me divertir, eu tinha que sair com as pessoas que trabalhavam comigo. Todos meus antigos amigos, família, eu quase não via porque, quando eles estavam se divertindo,
eu estava trabalhando e quando eu tinha tempo livre, eles estavam trabalhando”.

Na noite, ela fala que o assédio dos clientes era grande, mas que procurou nunca ser descortês com nenhum dos freqüentadores das casas onde trabalhou. “Às vezes eu tinha que ser um pouquinho mais dura, mas mesmo assim eu conseguia enrolar a pessoa para ela sair sem ficar braba comigo. Talvez seja um preconceito meu, mas a impressão que eu tinha é que um cara que chega numa atendente é porque não conseguiu ficar com ninguém na pista”.

Amanda confessa que devido ao ritmo de seu trabalho, acabou adquirindo alguns hábitos da noite. “Eu tinha parado de fumar, voltei a fumar, agora estou tentando parar de novo. A gente bebe mais, fuma mais, faz mais festa”. Aos poucos, agora que deixou seu trabalho, ela procura recuperar o pique. Amanda fala que está acertada para trabalhar durante o dia como vendedora em uma loja e vai deixar a noite para se dedicar aos estudos.

“Teu relógio biológico fica meio paranóico”

Para o radialista Sandro Moura, da Rádio Ipanema, o horário não foi uma grande novidade. Ele já havia trabalhado num sistema de turnos alternados em uma empresa siderúrgica, já que possui curso técnico em metalurgia. “Em termos de trabalho, era muito mais puxado até porque tinha muita coisa braçal, além o próprio período, que entrava às 10 horas e saía às 8 da manhã”. Há cerca de 2 anos e meio, trabalha na noite da rádio conduzindo o programa Balada Ipanema. Além da apresentação do programa à noite, Sandro faz o serviço de produção durante o dia. “Passei a vir de segunda a sexta durante o dia também justamente para organizar as coisas”. Conforme ele, o programa não termina antes das 3 da manhã. Sandro só consegue realmente desligar por volta das 4:30. “Teu relógio biológico fica meio paranóico”, coloca.

Sandro vê como um dos pontos positivos do horário a tranqüilidade para poder desempenhar sua tarefa. “Nesse sentido é bom porque é tranqüilo, tu tens com desenvolver mais as coisas, não tem aquela pressão”. Geralmente está sozinho na rádio durante o seu turno. “Praticamente em toda a Bandeirantes fica uma meia dúzia de pessoas na madrugada”. Mesmo assim, ele confessa que ainda não é o ideal. “É um horário bom, tranqüilo, mas não é o horário que eu gostaria de trabalhar. É o horário que me coube”.

O radialista conta que entrou pela primeira vez no ar por volta das 17 horas. “Aí eu fui subindo”. Sandro chegou ao horário das 22h à meia-noite. Durante determinado período, as rádios da Rede Bandeirantes conseguiram uma liminar onde não transmitia a Voz do Brasil no horário das 19h, sendo assim passado para às 23h, retirando uma hora do programa de Sandro. “Meu ex-chefe havia sugerido que eu perdesse o espaço porque ele achava inconveniente que eu viesse durante o dia e retornasse à noite para fazer o programa. Eu disse para ele que preferia assim, porque não acredito que as pessoas que queiram trabalhar em rádio queiram fazer só produção, cada um quer ter seu espaço, e depois que eu já consegui ele eu quis manter ele. Profissionalmente eu não iria me sentir contente com a perda deste espaço. Por um desses motivos que até hoje trabalho neste horário da madrugada”.

Em determinados dias, ele também faz discotecagem em festas pela noite de Porto Alegre para completar a renda. Nestes dias, Sandro procura deixar o programa gravado. Sobre a vida pessoal, o radialista afirma que também não consegue fazer algumas coisas que gosta de fazer. “Isto afeta o lado pessoal, no sentido de ir a um teatro, dependendo dos horários fica inviável. Eu acho que é difícil encontrar uma pessoa que realmente goste de trabalhar à noite. A noite não é feita para trabalhar, mas para descansar, se divertir”.

“A noite sempre me foi rentável”

O músico e Disc Jóquei Duke Jay diz que sempre trabalhou à noite. No início ele dividia as funções noturnas com seu trabalho de comerciário, mas há cerca de dois anos vive só em função da noite, conciliando as atividades de DJ do Pedigree Bar, localizado na Zona Sul de Porto Alegre, e de DJ da banda Bataclã F.C. “No início foi difícil pelo cansaço, pelo afazer do dia, que tu perdes por trabalhar à noite, perde a manhã, parte da tarde, acaba perdendo grande parte do dia para fazer as coisas”.

Para vencer as atividades, Duke ressalta que procurava descansar mais no domingo. Durante a semana, ele começa a trabalhar por volta das 19h30min e vai até às 4 da manhã. Nas sextas e sábados, às 21h e vai até às 7 da manhã. Chega em casa pelas 8h e dorme até às 14h. “Por ser um horário alternativo, tu acabas não indo visitar os parentes, fazendo almoços e outras coisas com os familiares em função do teu descanso”.

Duke diz que a esposa já se adaptou ao horário, mas em outras épocas foi difícil manter relacionamentos. “Quando tinha namorada foi difícil conciliar, era dia de passear e não tinha como”. Mesmo com os percalços noturnos, o DJ diz que este turno absorve os projetos no qual se dedicou. “A noite sempre me foi rentável, aí comecei a olhar ela com mais carinho e resolvi trabalhar com a noite”.

Sobre a questão do assédio das freqüentadoras do bar, ele afirma que é inevitável. Mas, assim como Amanda, procura diferenciar as coisas. “Elas mais olham do que chegam ali. Já houve caso de mulheres entrarem no meu espaço, rola recadinhos. Mas eu já sou muito mais família, não gosto de misturar as coisas. A noite, para mim, é serviço. Como é serviço eu não misturo. Quem não está à procura acaba não acontecendo”.

“Sou muito feliz porque eu ganho para fazer aquilo que eu gosto”

Ao contrário da corrente que acredita que trabalho e noite não se misturam, o radialista Jayme Copstein diz que não existem diferenças por causa do horário. Ele se diz acostumado com o período, pois vive de madrugada desde os 15 anos e trabalha na madrugada desde 1966, quando, antes de apresentar o programa Brasil na Madrugada, da Rádio Gaúcha, teve passagens pelos jornais Diário Notícias e Correio do Povo. “Como eu gosto muito disto aqui, de rádio, jornal, para mim não é trabalho. Eu sempre disse que sou um cara muito feliz porque eu ganho para fazer aquilo que eu gosto, seria como se fosse um brinquedo, jogar futebol”.

Copstein afirma que na maioria das vezes dorme das 8h às 14h. Segundo o radialista, a família não liga para o horário de trabalho dele. “A minha mulher, desde o princípio, sempre se acostumou com isto”. Ele diz que seu público ouvinte não é formado pelo estereótipo do trabalhador noturno, entre juizes que estão escrevendo sentenças, advogados escrevendo petições, médicos de plantão, contadores fazendo serão. “São pessoas que trabalham durante o dia e que tu não suspeitas que estivessem trabalhando na madrugada”.

O radialista afirma que tudo não passa de um mito sobre as pessoas que vivem na noite. “Como a gente tem esta idéia de que a noite foi feita para dormir, acho que isso vem do tempo ainda da pré-história, a gente acha que as pessoas são diferentes. As pessoas que são diferentes na madrugada também são diferentes durante o dia”. Ele recorda de uma vez que participou de um programa de debates apresentado por Ruy Carlos Ostermann sobre o assunto. “Tinha um camarada lá, acho que ele tinha uma boate, e nas suas considerações finais ele começou com uma voz muito trágica dizendo ‘eu sei que a noite é muito desgastante, que minha face se deteriorará’ aí eu disse: ‘aqui meu filho, tu não te baseias por mim porque eu sou feio de nascença’, acabou com o romance dele”, ri Copstein.

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