REPORTAGENS REMASTERIZADAS 06 – ARTISTAS ESQUECIDOS


Esta foi uma matéria feita em 2003, contando a situação da Casa do Artista Gaúcho, que na época vivia em abandono e contando apenas com o apoio e colaboração de alguns poucos amigos…

Nobre Casarão
Casa do Artista Riograndense abriga nove histórias da cultura do Estado e sobrevive com o apoio e o carinho da comunidade gaúcha

Um casarão de dois andares no fundo do terreno localizado na rua Anchieta, no bairro Glória, em Porto Alegre, abriga nove moradores, todos já numa faixa de idade avançada. O que se pressupõem é que se trata de um asilo. Ledo engano. Os nove viventes desta casa são senhoras e senhores que deram inestimáveis contribuições para a cultura do Estado do Rio Grande do Sul.

casadoartista01

Fundada no ano de 1946, a Casa do Artista Riograndense já passou em sua história por altos e baixos. Ela, atualmente, depende muito de recursos externos como doações, muitas vindas do poder legislativo. A diretoria da casa, comandada pelo diretor de teatro Dilmar Messias, teve muito trabalho para reverter uma situação que, segundo seus moradores, era de completo abandono na gestão anterior. “Quando chegamos aqui, fomos à luta para pagar as despesas, e é o que estamos fazendo até agora”, coloca o diretor da instituição. “Não só a comunidade cultural, mas toda a comunidade ajuda, tem uma simpatia pela nossa causa, até porque as pessoas que estão aqui, as pessoas que administram, têm credibilidade”.

A procura pela casa é grande. Conforme o morador Carlos Borges da Silveira, diversas pessoas vão até lá pedir abrigo, mas a casa não pode comportar mais do que sua atual lotação. “Aqui, para abrir vaga, tem que morrer um”. Os próprios moradores cuidam da administração do local, desde o preparo da comida até a limpeza. “Eles cuidam bem da casa aqui”, afirma Messias. “A casa é nossa, porque nós não vamos fazer”? Indaga Silveira. Ele diz que “tem gente que costuma dizer que aquilo é um asilo. Eu digo que isto é uma república”. O morador lamenta apenas a falta de interesse de ajudar de alguns setores da classe artística do Estado. “Se a classe artística toda juntasse, cada um, de cada sindicato, 50 centavos por mês, cinco mil pessoas, quanto daria? Amanhã ou depois um deles pode estar aqui”.

casadoartista02

Iniciativas para arrecadar fundos para a Casa também são realizadas. Messias destaca uma vernissage realizada pela Associação Chico Lisboa onde parte da renda foi revertida para auxiliar nos custos da instituição. Os artistas também são convidados para apresentações, principalmente da Prefeitura de Porto Alegre. Um exemplo foi durante a renovação dos convênios entre o executivo municipal e creches comunitárias. A atividade de alguns dos artistas também movimenta a casa. O compositor José Fabrício Galhano Rodrigues, um dos moradores, tem seus alunos de violão. O próprio Carlos Borges da Silveira também faz trabalhos de edição em vídeo para fora. “Estamos conseguindo sobreviver dignamente. As pessoas estão trabalhando, têm uma casa, estamos recebendo apoio da comunidade”, fala o diretor da casa, que está no final de seu mandato. “Certamente, na Casa do Artista, eu ou algum amigo meu vai estar aqui. É a minha casa”.

De Judas a Gibi

O vozeirão já identifica que Wilson Roberto Gomes foi oriundo da era da radionovela. Aos 16 anos iniciou sua careira de radioator, contra a vontade de seus pais, por indicação de Túlio Amaral. Começou trabalhando na Rádio Difusora no programa Volta ao Mundo em 20 minutos. Depois se transferiu para a Rádio Princesa. “Naquele tempo me deram o papel de um mordomo francês, o Pierre”. Trabalhou nas rádios Farroupilha, Gaúcha, Itaí, Metrópole, Feplam. Considera o grande êxito seu trabalho na Farroupilha, na novela Castigo do Céu, onde fazia o papel do Gibi, um garoto negro de 12 anos. “Depois estive no Manto Sagrado no Papel de Judas, papel que me marcou muito”. Ele confessa que, no entanto, o que mais gostava era de escrever. Trabalhou em São Paulo, onde teve um “recomeço” no Teatro dos Novos. Com a queda da radionovela, despediu-se da função em 1980. Hoje ele continua escrevendo e realiza trabalhos para uma agência de publicidade. Um dos passatempos de Rodrigues é fazer artesanato. Os colegas de Casa atribuem a ele toda a decoração da mesma, mas o artista, humildemente, divide o mérito com os companheiros.

Artista dos bastidores

casadoartista_carlos

Ele caiu meio que por acaso no mundo artístico. A irmã de Carlos Borges da Silveira iria fazer um teste de radioatriz na Rádio Paiquerê, de Londrina. Por imposição da mãe, ele acompanhou a irmã nos testes. Observando o trabalho de operação, foi convidado para aprender o ofício. Uma semana depois, ele já era funcionário da rádio. Depois de rodar diversas emissoras de rádio e TV no Paraná e em São Paulo, chegou ao Rio Grande do Sul e foi direto para a Rádio Cultura. Depois passou por outras várias emissoras da cidade. “Eu inaugurei a TV Difusora, onde trabalhei seis anos. Na TV Gaúcha (RBS) trabalhei cinco anos. Na Pampa, trabalhei mais três anos, na Piratini mais dois anos”. Logo depois, com a experiência de operador de rádio, telecine, videoteipe, câmera, entre outros, mudou para o ramo da produção de comerciais. Um de seus trabalhos, conforme ele, foi o lápis de desenhar do Guaspary. “Dentro de radio e televisão, fiz de tudo”. Atualmente produz de dentro da Casa do Artista, onde ganhou uma sala de produção e edição de vídeo. Ele mostra, orgulhoso, o funcionamento de seu trabalho. Segundo Silveira, dá para tirar algum dinheiro desta atividade.

Quem tem boca é pra cantar

casadoartista_zedaterreira

Ele se autodenomina cantor popular e gosta de frisar esta condição, mas José Carlos Peixoto da Silva é mais conhecido pelo seu trabalho no meio do teatro de rua, o que lhe rendeu o apelido de Zé da Terreira, em alusão ao trabalho junto com o grupo Terreira da Tribo. “Como cantor, comecei nos programas de calouros que tinha aqui em Porto Alegre, em 1968, 1969… Cantei no programa do Júlio Rosemberg”. Participou do festival universitário brasileiro de 1968 com nomes como Beth Carvalho, Dori Caymmi. Um ano depois rumou para o teatro, onde entrou para o Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS e de início encenou sob a direção de Olga Reverbel o espetáculo A Menina e o Vento. Zé tentou a sorte, nos anos 70, no Rio de Janeiro, onde trabalhou com nomes como Teresa Rachel, Antônio Pitanga e Osmar Prado. Depois saiu do teatro convencional e partiu para experiências do teatro de rua, onde conheceu o grupo de teatro Ta na Rua, sob a tutela de Amir Haddad, no qual considera seu ‘mestre’. “Ali foi a minha escola de teatro da rua”. De volta a Porto Alegre, ele começa a se envolver com a Terreira da Tribo, onde ganhou sua alcunha. Ele afirma não ter feito muitos trabalhos em vídeo. “Fiz uma ponta no Prá Frente Brasil”, fala. Zé faz questão de salientar seu último trabalho, um CD, gravado com recursos do Fumproarte, com o título de Quem tem Boca é Pra Cantar. Hoje, Zé diz que produz seus próprios espetáculos. “Eu estou aqui na Casa do Artista porque, infelizmente, os artistas locais ganham muito pouco, demoram para nos pagar. Se eu fosse pago de uma maneira melhor eu não precisava estar aqui, poderia estar ajudando a Casa”. Zé da Terreira foi homenageado, em 2000, pela Câmara dos Vereadores com a distinção Qorpo Santo.

O professor

casadoartista_fabricio

“Essa é de minha autoria”, avisa José Fabrício Galhano Rodrigues, antes de começar a dedilhar o violão e prender a atenção de quem está na sala da Casa do Artista. Ele começou em 1951, trabalhando no programa Variedades em Revista, apresentado por Adroaldo Guerra. Ele fazia parte do grupo Vocalistas do Luar, no qual era líder. Fabrício acompanhou, entre outros, as irmãs Batista e até a ‘pimentinha’ Elis Regina contou com a companhia do músico. Fabrício rodou o Mercosul fazendo suas apresentações e levando sua música para fora do País. A televisão, de acordo com ele, prejudicou o trabalho das rádios. “As rádios começaram a dispensar seus músicos, seus artistas”. Com isso, ele teve que começar a trabalhar pela noite, trabalhando no restaurante Gente da Noite, do compositor Túlio Piva. Fabrício afirma que existem três qualidades de violões e diz, com autoridade, que sabe tocar os três. Ele aproveita o espaço na Casa do Artista e leciona para algumas pessoas que o procuram.

Desabafo

Antes de começar a entrevista, a radioatriz Lolita Alves avisa: “hoje eu não vou dourar a pílula. Hoje eu vou dizer a verdade, vou dizer o que eu sinto”. Ela diz possuir o grande arrependimento de quando teve proposta para trabalhar no Rio, não ter aceito. “Eu fui tão incoerente que fiquei aqui. Tenho ódio de mim e de muita gente”, conta. Em seu trabalho, Lolita fala que foi uma das atrizes favoritas de Maurício Sirotsky Sobrinho e Walter Clark. “Eles me endeusavam, eram amigos. Eu estava com a faca e o queijo nas mãos e eu não usei”. Ela lamenta hoje estar na situação que vive por causa de não ter aproveitado as chances que teve. Lolita, moradora há 18 anos da casa, diz que seu trabalho de radioatriz foi “muito bonito. É um trabalho digno, não essas imundices da televisão”. Ela fala que trabalhou em grandes produções com os medalhões do radioteatro gaúcho. “Se eu fazia um papel de bandida o público me odiava, se eu fazia um papel de freira, eles achavam que eu estava fingindo”.

Anúncios

Um pensamento sobre “REPORTAGENS REMASTERIZADAS 06 – ARTISTAS ESQUECIDOS

  1. Que coisa boa ver musicos como o Fabricio que tocou com meu tio,grande musico gaucho,Breno Baldo,ainda esta dando aulas de violão. nesse instrumento ele foi mestre tocava muito.Parabens pela reportagem e felicidades ao Fabricio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s