REPORTAGENS REMASTERIZADAS 04 – O SONHO DE SER ROMÁRIO


Essa matéria é uma das raras matérias esportivas que fiz. O legal foi a forma que o texto foi tratado. Fala sobre o sonho de jovens que decidiram tentar a vida no futebol. Isso foi em 2001. QUem sabe um deles não está pelos gramados do mundo hoje?

O sonho de ser Romário

Oito e meia da manhã do dia 13 de março. Cerca de 52 garotos entre 15 e 20 anos vão passar por um teste, talvez o mais fundamental de uma curta vida. Alguns estão quietos, outros conversam com os pais, que vão dar uma força. Um que outro ajeita o material. Logo chega uma Kombi. Dela descem um grupo de homens, que chamam os meninos para uma roda. Vai começar ali o grande vestibular… da bola.

Chuteiras de marca se misturam com as ralas. O gel no topete de alguns copia a nova moda entre os jogadores de futebol. A caneleira é um acessório à parte. Tem quem ainda copia o estilo Renato Portaluppi, com as meias baixas. Mas o jeito Ronaldinho é o mais visto no grupo, com direito ao brinquinho. O que não pode é estar sem camiseta. “Põe a camisa guri”, grita o treinador. A disciplina vem desde cedo.                                                                      

O cenário é o campo de treinamentos do Grêmio, no Bairro Cristal. De um lado, está o Jóquei Clube. Do outro, o rio Guaíba. O sol começa timidamente a aparecer, aos poucos, entre as nuvens que estavam se inclinando para um dia nublado. Começa a ficar quente. Os rapazes, ansiosos, esperam a hora de o treinador rolar a bola, para que eles possam mostrar que podem ser, Ronaldinhos, Rivaldos ou Romários.

Vinte e dois deles são chamados. Começa um pequeno alongamento, pois todos os detalhes são importantes para o teste. Os coletes azuis e brancos são distribuídos. Os times se separam e começa o jogo, o mais importante da vida deles até o momento.

O desentrosamento entre os jogadores é notável. Erros de passe, bolas perdidas e entradas fortes são visíveis aos olhos do balé da pelota. Aos poucos, o ritmo vai se acertando, através de um palavreado bastante conhecido dos boleiros. “Toca aqui, toca aqui negão!”, “Vai meu lateral, vai, sobe!”, “Ô, alemão! Toca no meio, no meio”.

São garotos sem nome, sem identidade. Ali eles são o “Zagueiro”, o “Lateral”, o “Atacante”. Estilosos, procuram copiar os jeitos dos ídolos dentro de campo. Aprendem vendo eles na TV e copiam, como se na verdade estivessem seguindo um manual. A maneira de passar, de chutar, de cabecear.

“Faz o gol, filho”

Do lado de fora tem quem grite como se estivesse dentro do campo. São os pais, que os acompanham na peneira. Antigamente, era uma vergonha para eles verem os filhos querendo jogar futebol. Hoje, com os salários astronômicos dos grandes craques, é quase uma obrigação tentar a carreira de jogador.

Atentos, não perdem uma jogada de suas “crianças”. Se possível, indica o que fazer. “Filho, vem cobrar o escanteio que é para ti”, “Aparece que a bola é tua, filho”. Os pais geralmente encaram os filhos como craques, o melhor em campo. Já as mães, geralmente, mal sabem o que acontece em campo. “Meu filho é aquele ali, mas eu nem sei em que posição ele joga”, confessa uma mãe para a outra.

Comentários são o que não faltam. Inclusive sobre outros garotos. “O Zagueiro, o Zagueiro ali tá jogando bem”. “Pois é, os caras não tiraram ele, acho que ele vai ser selecionado”.

Os caminhos do craque

O Grêmio realiza cerca de 32 peneiras por ano, entre os meses de março e novembro. Segundo José Flor da Silva Filho, o Alzir, a peneira é a primeira etapa. Eles têm dois dias de treinamento para serem avaliados. Quando algum se destaca, ele é encaminhado para treinar com um grupo aspirante, onde fica 30 dias em desenvolvimento. Depois de dois meses de trabalho, ele passa por um teste dentro da categoria amadora correspondente. Um exemplo que passou por todo esse caminho é o meio-campo do Grêmio, Paulo César Tinga.

Dos 52 garotos, apenas um foi chamado para uma conversa com o treinador William Leite, o Pocho. Ele mesmo, o Zagueiro, que os pais comentavam tanto. “Esteja lá no Grêmio amanhã a uma e meia da tarde”, diz Pocho. É um que ainda vive o sonho de se tornar um Tinga, um Ronaldinho, um Romário, um Rivaldo…

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