REPORTAGENS REMASTERIZADAS 03 – OPERAÇÃO CONDOR


Uma vez, em 2003, fui convidado a acompanhar um evento no Uruguai que celebrava os 20 anos do fim da ditadura naquele país. Talvez tenha sido um dos eventos de importância histórica que eu tenha feito na minha carreira. Tanto que a cobertura rendeu o primeiro lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. Um dos pontos altos foi a entrevista com o Universindo Díaz. Ele foi um dos principais personagens de uma história que desmontou o regime militar nas américas, com a chamada Operação Condor. Abaixo vai a entrevista.

Ele foi um dos personagens mais importantes da história na luta contra as ditaduras militares na América Latina. O jovem militante uruguaio Universindo Díaz, juntamente com Lilián Celiberti e seus dois filhos, foi seqüestrado em um domingo, dia 12 de novembro de 1978, por policiais brasileiros em operação conjunta com o exército uruguaio em um apartamento na rua Botafogo, bairro Menino Deus, em Porto Alegre. O caso mobilizou a imprensa e os setores sociais dos dois países na época e deflagrou um movimento de cooperação entre os regimes militares da América Latina que se chamava Operação Condor. O caso de Lílian e Universindo, de certa forma, manchou as já cambaleantes ditaduras militares na América. Hoje, o historiador Universindo fala à 359 Online, com exclusividade, sobre o que ocorreu na época e como isso mudou uma página na história recente da América Latina.

Como começou esta história, desde o início?
Universindo – Olha, brevemente teríamos que falar da ditadura do Uruguai que completa 30 anos do golpe de estado. Naquele tempo eu era estudante da Faculdade de Medicina. Portanto, era militante da Associação de Estudantes de Medicina, que era uma das integrantes da Federação de Estudantes Universitários do Uruguai, que era uma agremiação estudantil muito importante no país. Quando vem o golpe de Estado, a organização se põe contra a ditadura e há uma situação de repressão sobre partidos políticos e sobre organizações sociais.

A partir de então muitos de nós passamos a ser vigiados primeiro, depois perseguidos, e muita gente fugiu do país. Eu saí do país em 75, fui para a Argentina, Buenos Aires. Quando cheguei a Buenos Aires a situação estava bastante complicada, havia muitos confrontos, governo peronista, crescimento do totalitarismo, juntamente com a guerrilha, e a situação era complicada para a população da Argentina e para a numerosa colônia latino-americana, já que havia na Argentina milhares de uruguaios, milhares de chilenos que também vinham de um golpe. Assim que veio o golpe na Argentina, em 76, que assume Vidella, a situação ficou tão complicada, ao ponto de milhares da colônia latino-americana foram presos, torturados, encarcerados, muitos uruguaios desapareceram na Argentina, justamente neste ano de 76. Eu tive a possibilidade de me refugiar nas Nações Unidas e fui para a Europa, mais precisamente para a Suécia, como refugiado.

Em pouco tempo na Europa, parecia que a situação no Uruguai estava extremamente difícil. A oposição interna à ditadura no país era grande. A luta estava num momento de muita baixa, haviam grandes dificuldades para desenvolver a luta porque, entre outras coisas, iniciada pela repressão que se viu na Argentina contra a colônia latino-americana que obrigou a muita gente que estava ali que acabaram presas. Na Europa surgiu a possibilidade de dar uma ajuda ao Uruguai, desenvolvendo puramente tarefas de informação, de observar o que acontecia em nível social, cultural, em nível das condições de vida dos trabalhadores. A idéia era se aproximar do Uruguai com o objetivo de colaborar com a resistência contra a ditadura, sobretudo na denúncia para organizações internacionais. E optamos vir pelo Brasil por causa da proximidade do Brasil com o Uruguai e porque no Brasil se falava, ao final da década de 70, no processo de abertura, que nos parecia importante. E a nossa idéia era esta, vir tranqüilos, com muita cautela, buscando se relacionar com os setores democráticos brasileiros, com a idéia de chegar ao Uruguai.

E nisso estamos nós com a Lílian Celiberti e outros companheiros quando são realizadas algumas detenções no Uruguai de gente que nos conhecia, de gente que sabia que estávamos no Brasil, nas quais participávamos da edição de um jornal chamado “Compañero”. E os serviços de inteligências das forças armadas detectaram nossa presença no Brasil. Eles nos rastrearam e tiveram a sorte de nos encontrar. Houve uma estreita vinculação, que já vinha de antes, do serviço de inteligência uruguaio com o serviço de inteligência brasileiro, sobretudo com o DOPS, a polícia política, a polícia de Porto Alegre, eram velhos conhecidos os daqui e de lá. Essa relação havia se estabelecido desde 1964, depois do golpe no Brasil, Eles tiveram a informação que alguns opositores estavam em Porto Alegre, no Brasil, estavam em contato com pessoas do serviço brasileiro. Aí se procede a realização de uma coordenação orgânica em que a companhia de contra-informação do exército uruguaio com seus colegas brasileiros nos encontram.

Os brasileiros, quando nos encontram, nos torturam tentando buscar informações sobre aonde estavam outros uruguaios, coisa que não conseguem. Finalmente os uruguaios os pressionam para que nos levem ao Uruguai.

E os brasileiros queriam que vocês ficassem no Brasil
Universindo – Os uruguaios estiveram em seguida ali nas dependências na Rua Ipiranga (Sede do Palácio da Polícia) e queriam nos trazer rapidamente para o Uruguai. Nós falamos para os brasileiros que nós éramos refugiados das Nações Unidas, que a situação no Brasil não era igual que na Platina e que o transporte nosso para o Uruguai era ilegal e clandestino e que se criaria um problema político internacional importante. E isso que os brasileiros se preocuparam com a coisa e tiveram dúvidas quanto à conveniência de nos entregar aos uruguaios, mas no final venceu a insistência dos militares uruguaios e os brasileiros acabaram cedendo. Daí nos trouxeram para o Uruguai, com os filhos de Lílian, Camilo e Francesca, e depois nos levaram à fortaleza de Santa Teresa, onde havia uma dependência militar, e seguiram nos torturando brutalmente. Nós fomos detidos no Brasil num domingo, 12 de novembro de 78. E na madrugada de 12 para 13 nos trouxeram ao Uruguai. Chegamos ao meio-dia em Santa Teresa, havia toda uma comitiva de militares nos esperando. Passaram pela fronteira e estava tudo arranjado, os aduaneiros nem se deram conta que nós passávamos.

E finalmente a mim e aos filhos de Lílian Celiberti, nos trazem à Montevidéu, para dependências clandestinas das forças armadas uruguaias, e a Lílian eles voltaram com ela para Porto Alegre, e montaram uma “ratoeira” na casa onde vivíamos na rua Botafogo. Quando eles montam a “ratoeira” e esperavam achar outros uruguaios, tínhamos dito à eles que nós éramos gente normal que estávamos vinculado com a oposição brasileira e com as Nações Unidas. Quando eles montam a “ratoeira” em vez de militantes uruguaios foram ao apartamento jornalistas brasileiros, Luiz Cláudio Cunha e o Fotógrafo (Scalco), da revista Veja. E a princípio pensavam que eles eram uruguaios, depois viram que eram brasileiros. Daí desmontam a “ratoeira” e devolvem Lílian para o Uruguai. Em pouco tempo apareceram outros jornalistas, o advogado Osmar Ferri, e outras pessoas do Brasil. E em poucos dias a denúncia do seqüestro no Brasil cobre todo o Estado Público e é tomado com muito carinho, com muita força pela imprensa brasileira. E os sindicatos, na época estava Olívio Dutra como o presidente dos bancários. Nós havíamos falado com ele.

Houveram muitas mobilizações para tirar vocês da prisão. Que importância tiveram os movimentos, o povo, a resistência para que, no caso de vocês, pudesse vir à tona?
Universindo – Se gerou um grande movimento no Brasil porque era a primeira vez que se comprovava a realização de um seqüestro e a convivência dos serviços secretos, nesse caso dos uruguaios com os brasileiros, que depois se veio a conhecer como a Operação Condor, onde havia toda uma coordenação para apagar e fazer desaparecer aos opositores. E no nosso caso tivemos a sorte de que se pode comprovar essa realidade. E a partir disso, do Brasil, os setores uruguaios que estavam no exterior fizeram contatos com os franceses, suecos, italianos, suíços, e se criou um grande movimento internacional para denunciar a ação da ditadura, a convivência dos serviços de inteligência, a tortura, os desaparecimentos. E isso possibilitou a salvar nossas vidas, porque se não tivesse isso tudo, seríamos nós desaparecidos. Serviu para denunciar essa situação e para estreitar os vínculos dos povos.

Hoje depois de 30 anos do início do golpe, resgatar essa memória é importante para que não se deixe desaparecer essa memória daqueles que lutaram?
Universindo – Eu creio que cada povo em cada país leve adiante instâncias como hoje em dia, no Uruguai, aproveitando que vão fazer 30 anos do golpe de Estado. É muito importante a reflexão, regatar o que se fez, divulgar o que se fez para as novas gerações e, sobretudo, criar intercâmbios em nível de reflexão, de debate para ver porque essas coisas aconteceram e o que teríamos que fazer para que essas coisas não aconteçam mais, porque a luta dos povos é muito dolorosa, há sofrimento, tortura, morte, exilados. A luta tem que ser pela democracia política com bem estar social e justiça social para que não se retorne ao autoritarismo. Esta é a causa permanente de conflitos. A idéia é aproveitar momentos como este, não somente refletir, mas refletir com outros povos que tenham esta experiência.

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