REPORTAGENS REMASTERIZADAS 01 – A HISTÓRIA DE ZÉ CONTENTE


Para começar a série, trago a história que escrevi em novembro de 2003 do gaúcho Horácio Indarte. Ele esteve preso no Carandiru e disso nasceu um livro: Zé Contente.

Memórias do Cárcere
Gaúcho escreve livro sobre sua experiência em casas do sistema prisional paulista

Em 1936, Graciliano Ramos é preso pelo Estado sob a acusação de subversão comunista. De onze meses de detenção, saiu uma das mais famosas obras da Literatura Brasileira: Memórias do Cárcere, lançada em 1955. Em 1998, Horácio Indarte, um gaúcho que foi ganhar a vida em São Paulo, é pego em uma blitz policial com cinco gramas de drogas. Ele foi preso por suposto tráfico de drogas, embora os entorpecentes fossem para consumo próprio. Desta experiência, saiu Zé Contente, uma obra que retrata o convívio de Horácio no sistema carcerário paulista. O livro, lançado este ano, conta uma visão diferente do Carandiru. O olhar não é de um cineasta ou de um médico que realizava trabalhos com os detentos, o olhar é de alguém que foi mais um número do sistema prisional da maior cidade do País. Dois livros, dois relatos de tempos diferentes do sistema prisional. Horácio conduz, em sua obra, um relato cru do que acontece nas prisões.

Ele foi direto para a 15ª DP, no Itaim Bibi “Quando eu fui preso, já na primeira semana, eu me senti um estranho no ninho porque dentro da cadeia eu não podia falar porque eu tinha uma boca e a boca tem dentes. Aí os caras lá dentro diziam ‘tu não fala, não abre a boca’, porque eu tenho dentes, e isso excita”. Ele diz não ter percebido inicialmente que existiam certas regras dentro da prisão. “Isso na hora eu não notei, eu vi uns caras banguelas, cheios de tatuagem, negros, brancos, todos misturados. Parecia que eu estava num filme que eu assisti, eu estava dentro do filme Feios, Sujos e Malvados, que eu tinha assistido em Porto Alegre na década passada”. Depois, pensando melhor, Horácio se sentiu dentro de um livro. Falando em livro, um foi fundamental para fazer ele passar o tempo na cadeia: a Bíblia, o único livro permitido na DP. “Aí os caras começaram ‘Ah, vai se esconder atrás da Bíblia’…”.

Aos poucos Horácio foi aprendendo a conviver com aquele ambiente, inclusive já usando as gírias da prisão. “É um submundo, um subsistema. Você não conhece uma favela, não sabe como é uma favela. Eu também não, mas eu fui para um lugar pior do que a favela, pois é onde os ‘neguinhos’ da favela vão parar, porque são discriminados socialmente, sociologicamente e, de qualquer forma, eles se auto-discriminam e entram para o mundo do crime. No livro eu ponho a crua realidade que eu consegui viver”. Horácio fala que a maioria dos detentos, personagens reais que aparecem no livro, eram nordestinos. “Paulista mesmo não vai parar em cana, se entra em cana alguém liga e tira ele de lá. Quem entra em cana são os nordestinos, pobrezinhos, favelados…”. Ele diz que para conseguir qualquer coisa dentro do cárcere era uma dificuldade. “Tudo era difícil. Para conseguir sabão em pó era difícil, uma lasquinha de sabão era difícil. Eu não tinha chinelo, eu fiquei com umas frieiras nos pés, pisando no boi (banheiro) onde todo mundo se masturba, mija ali…”

Na 15ª DP, Horácio conta ter passado por uma rebelião “pacífica”. Segundo ele, era um movimento para reivindicações, onde até as visitas participaram. “Queriam melhor tratamento, queriam colchões, queriam mais espaços nas celas e transferência para os caras que já estavam condenados, porque normalmente a DP lotada é um inferno e tinha muita gente ali estava pagando, que tinha que ser transferida, já tinha sido condenada”. Depois disso, Horácio relata que houve um acerto de contas entre os presos e aproveitou para ir junto para o corró, que é o local onde o preso fica isolado na DP. Ele pensou que, por ser uma cela menor, seria melhor, “só que eu não saía de lá para nada, e eu fiquei oito meses numa cela menor que esta sala (demonstrando sua sala com cerca de 3 a 4 metros quadrados). Ali revezavam dez, onze presos e tinham uns que dormiam por cima dos outros. Aconteceram coisas ali, e coisas terríveis”.

Na prisão, Horácio sonhava freqüentemente que estava usando drogas. “Eu era um dependente psíquico da droga, e não químico. Eu não chegava a fazer barbaridades por causa da droga, mas eu vivia em função da cocaína”. Mesmo sendo apenas usuário, Horácio foi condenado por tráfico. Logo, teria que tomar o bonde (veículo de transporte dos presos). Quando descobriu o paradeiro, a primeira coisa que veio à cabeça foi o trecho de uma música de Caetano Veloso que dizia ‘111 presos, quase todos indefesos…’. O destino de Horácio era o Carandiru. Chegando lá, a grande preocupação dele era de não ir parar no conhecido Pavilhão 9, local do massacre de outubro de 1992, onde 111 presos morreram num confronto com a polícia. “O cara que tem um crime mau, que mata criança, que estupra, morre de medo do Carandiru, porque lá dentro tem acerto de contas e eles morrem”. Na triagem, ele viu que algumas coisas eram diferentes do que se falava. “O preso, quando está condenado, ele tem uma conduta diferente. Ele vai ter que ‘puxar’ uma cadeia ou vai ter que fugir. Não tinha briga. Um lá xingou o outro, mas não teve nenhum soco”, conta.

No Carandiru, Horácio ficou no Pavilhão 5, que era considerado o pavilhão seguro. No entanto, ele revela que o local era pior que o temido Pavilhão 9. “Fiquei no quinto andar do 5, que é aonde os caras só podiam sair duas horas por semana para tomar banho de sol, pois não podia misturar com os outros porque senão matam eles”. A droga era o principal passatempo dos presos do local onde ele ficou. “Os caras ficavam numa nóia tremenda. Eles querem ficar fumando maconha. Querem fumar crack, querem cheirar, ficam todos se drogando. Um fazia ‘maria-louca’, uma cachaça que eles destilam lá. Eu pensei ‘eu não vou me drogar, já estou num lugar muito ruim'”. Com isso, Horácio começou a escrever cartas para os amigos para passar o tempo.

Horácio ressalta que, em todos os momentos que esteve na cela, não houveram brigas entre os presos. “Os guris chegavam a jogar cartas. Eu ficava cantando todas as músicas do Beto Guedes”. Os confrontos ficavam para o pátio. Era como em uma escola, onde as brigas ficavam marcadas para a ‘hora do recreio’. Ele lembra de várias vezes ter ouvido, em alguns acertos de contas, presos pedindo para não morrer. “Quando eles matavam ‘neguinho’ lá no pátio todo mundo corria para olhar pelas janelas e eu não via nada, já estava lá preso não ia ver estas cenas”. Conforme Horácio, as cenas lembravam o livro Vigiar e Punir, do francês Michel Foucault. “Ele relatava o suplício na França no século XVII, onde as pessoas eram amarradas, esquartejadas e gritavam Pelo amor de Deus, e quanto mais eles gritavam, mais a alma deles se libertava. Era uma coisa meio ‘heavy metal’, quanto mais eles gritavam, mais a alma deles se libertada para irem para o céu”.

O então governador Mário Covas iniciou a construção de novas penitenciárias pelo interior de São Paulo. Por indicação de um dos detentos, Horácio se inscreveu para a transferência de presídio. Depois de 45 dias no Carandiru, foi transferido para a Penitenciária de Pirajuí, onde ficou cerca de dois anos. Foi nesta prisão que ele encontrou o personagem que dá o nome a sua obra. “Daí o Zé Contente me aparece lá. Ele era um velhinho nordestino, encolhidinho, e eu perguntei ‘Zé Contente, como é que tu veio parar aqui’? Eu gritava ‘ô Zé Contente’, como se fosse na roça”, perguntei que crime ele tinha cometido, pois ele era um cara bom, alegre”. Apesar da alcunha, Contente era o sobrenome de José Contente da Silva Neto, natural de Pernambuco, acusado de homicídio.

A pior situação de acerto de contas vista por Horácio ocorreu em Pirajuí. Na ocasião, 13 presos foram queimados vivos devido a acusação de que estariam extorquindo as visitas e alguns detentos. Em Pirajuí, de acordo com Horácio, o preso era tratado como reeducando. “Eu ficava lá de bobeira, ficava assistindo os Teletubbies, lendo. Um amigo meu passou a assinatura da Época para o meu nome, mergulhava nuns livros que os amigos mandavam”. Ele começou a trabalhar dentro da penitenciária primeiro no setor de cozinha, depois na cantina dos funcionários. No final do ano 2000 Horácio, enfim, ganhou sua liberdade.

Durante a sessão de autógrafos na Feira do Livro, Horácio relata que, no encontro que teve com Frei Betto, ganhou o livro Lula, um operário na presidência. “Ele conta que há 30 anos atrás o Lula foi preso e ele e o Olívio Dutra estavam na casa dele. O Lula e o Zé Contente são os mesmos sujeitos. São nordestinos que vêm para São Paulo com seus objetivos”.

O livro de Horácio é recheado de referências musicais, cinematográficas e literárias, que se misturam aos fatos ali narrados. “Tudo que é culturalmente aproveitável, reciclável e utilizável eu vou citando. É uma salada mista”. A obra, que mostra a realidade de um Zé Contente, pode contar ao mesmo tempo a história de outros Zes Contentes pelo Brasil afora. “Eu mesmo me sinto um Zé Contente, um Zé Ninguém, um Zé Mané. Eu sou um Zé, qualquer brasileiro é um Zé”, afirma.

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Um pensamento sobre “REPORTAGENS REMASTERIZADAS 01 – A HISTÓRIA DE ZÉ CONTENTE

  1. Comprem o livro Zé Contente, pois eu recomendo é muito bom, fora que o autor é uma grande pessoa.

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