VIRA A CASACA. E DESVIRA. E VIRA DE NOVO…


Vi este texto numa comunidade do orkut. É do blog de Bruno Mazzeo, muito interessante o que ele escreve…

Quando a Lei Pelé foi aprovada, no fim dos anos 90, os idiotas da objetividade bradaram que era o fim da escravidão do jogador de futebol. Como se os jogadores precisassem de uma Lei Áurea, tadinhos, afinal, são forçados a trabalhar quase de graça, se concentram em senzalas nas vésperas dos jogos, onde ficam pendurados em paus-de-arara e, na base das chicotadas, pobres jogadores, são obrigados a correr atrás de uma bola mesmo em um domingo de sol.

Desde então os clubes não tem mais “poder” sobre o jogador. Este, o “poder” passou a ser dos empresários e… dos próprios boleiros. Qualquer criança sabe que os empresários, seja em que ramo for, visam… dãããã… o lucro. O seu. Já os jogadores visam… o que mandarem visar porque poucos têm inteligência suficiente para conseguir formar um raciocínio próprio, além do de ganhar dinheiro pra comprar um carrão cafona, uma casa cafona na Barra, roupas cafonas e mulheres cafonérrimas.

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Momentos como esse acima… esquece! O jogador agora é livre para trocar de time como quem troca de roupa, pouco importa a história, a paixão do torcedor, a busca pelos títulos. Se a Lei Pelé fosse, digamos, dos anos 70, talvez Zico não fosse a cara do Flamengo nem Roberto a do Vasco. Poderiam inclusive ter trocado de clube entre si. Como já começou a fazer a geração seguinte, com seus sucessores jogando mais de uma vez nos dois maiores rivais.

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Tá, eu não sou um conhecedor profundo dessa lei, posso estar falando besteira, mas os fins explicam (não necessariamente justificam) os meios e hoje quase nenhum jogador tem relação absoluta com clube algum. Talvez só o Rogério Ceni com o São Paulo. Ou alguém acha que o Luizão vai ser identificado com Vasco, Flamengo ou Botafogo (no Rio), Palmeiras, São Paulo, Santos e Corinthians (em Sampa)? Ou seja, quase todos os rivais de Rio e São Paulo antes mesmo dos 30 anos. E sempre beijando a camisa, o escudo, dizendo ser “a cara do time”, que “sempre sonhou em vestir essa camisa”, afinal é “torcedor desde criancinha”.

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As fotos acima às vezes não têm intervalo de dois anos! Resultado: Luizão ganhou títulos em quase todos, sempre fez muitos gols, mas não tem a cara de nenhum time. A última notícia que eu tive foi que ele estava no São Caetano… até sumir do mapa. Mas com alguns milhares de reais a mais na conta, assim como seu empresário. Eu devia mudar de time. Torcer, sei lá, pelo Juan Figger. 

Tudo bem, a dor de corno de ver Leandro Amaral trocar São Januário pelas Laranjeiras foi o que me motivou a desabafar por aqui. Mas isso foi só a gota que faz o copo transbordar. Eurico Miranda está longe (tão longe quanto Piripiri de Tóquio) de ser um santo. Eu não compraria um carro usado dele. Mas Leandro Amaral mostrou que é da mesma laia. Para quem não sabe, o rapaz estava há 6 meses sem clube e há pelo menos 5 anos longe dos holofotes, desempregado após passagens frustradas por alguns grandes daqui e pequenos do exterior. Foi para o Vasco porque era um jogador do nível que o Vasco (um clube mal administrado, sem patrocínio, sem $) é capaz de contratar. Bom jogador que é, fez gols, foi o melhor do time nas duas (uma e meia?) temporadas, como se isso fosse um mérito. Beijou a camisa algumas vezes. E, no fim de outubro, deu a seguinte declaração:

– Não saio do Vasco para o Fluminense e nem para nenhum time do Brasil. Só para o exterior, se houver uma proposta irrecusável. Serei eternamente grato ao Vasco por tudo o que ele fez por mim, e quando beijo a camisa do time, beijo com amor.

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O que vazou depois foi que desde maio ele já vinha conversando com o Fluminense, com os dirigentes tricolores (primores de ética) tendo sugerido até que ele arranjasse uma briga com Romário para forçar a saída. Depois se noticiou que ele tivera atitude igualmente traíra em Portugal quando deixou a imprensa o esperando para a coletiva de sua apresentação no Porto, saiu pela porta dos fundos do hotel, pegou um jatinho e se apresentou na Fiorentina, da Itália, em troca de alguns centavos a mais. E que está sendo processado por um clube francês também por essas questões. Não estou rogando praga, mas a gente já sabe qual é o futuro, né? Vai ficar por ali um, dois anos, vai pra Arábia, volta seis meses depois para o Coritiba, o Goiás, o Figueirense, até se juntar ao Luizão e outros tantos no time dos que sumiram do mapa.

O mesmo Fluminense pagou o preço quando viu promessas em quem se investiu desde criança se mudarem para seu rival maior logo que atingiram a maioridade, como Toró e Diego Souza (este, aliás, já indo para seu quarto clube).

No fundo, deep inside, quem sofre com isso é o torcedor, o que paga ingresso, o que sofre, chora, briga com a mulher, falta ao trabalho, tudo motivado pelo resultado do seu time. Para depois ter que ouvir de um Souza que nem lembra que jogou no Vasco logo ao chegar no Flamengo (dois anos depois de ter saído de São Januário). Pois eu vou lembrá-lo: lembra, Souza, quando você era apenas mais um pobre brasileiro, que enfrentava ônibus lotados, vivia com ajuda de custo para sustentar uma família enorme e que, se não fosse a sorte de alguém ter olhado para você numa peneira onde havia outros 100 garotos como você, alguns até mais talentosos, estaria hoje em algum sub-emprego ou, radicalmente dizendo, no crime (ou alguém acha que o Souza seria um bom advogado, por exemplo)? Lembra? Aí você foi para o Vasco, ainda antes da maioridade, fez meia dúzia de gols (tá, um do título), apareceu na TV, comprou roupas cafonas, comeu umas maria-chuteiras… começou a trocar de time e, subitamente, esqueceu do passado, cuspindo no prato em que comeu. Vai acabar no Madureira. Onde começou. Afinal, não vamos esquecer que estamos falando do Souza. Poderia ser Silva, Santos, tanto quanto é Souza.

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O curioso, não sei se você notou, é que os jogadores citados aqui (com exceção dos quatro primeiros) são – no máximo – medianos. Assim como Dodô (que freqüentou três dos quatro grandes de São Paulo) e agora, mesmo antes do fim do campeonato, já se sabia que trocaria o Botafogo pelo Fluminense. Ou Roger, que criado pelo Fluminense, se disse rubro-negro desde o berço ao chegar na Gávea, de onde, diga-se de passagem, já saiu. E não entrou em lugar nenhum. Ou você compraria um carro caro sabendo que, em poucos meses, ele pode sair sozinho da sua garagem dizendo que resolveu conduzir o seu vizinho do prédio ao lado?

Claro, a gente se apaixona por uma mulher, depois pode perfeitamente desapaixonar e se apaixonar por outra. Todo mundo muda de idéia, é fundamental a máxima de Pascal que dizia não se envergonhar de mudar de idéia por não se envergonhar de pensar. O que incomoda é o descaso, a falta de respeito com quem paga ingresso e com as entidades (essas sim eternas). Beijar a camisa, por exemplo, deveria ser proibido pela FIFA. Nem que seja por uma questão de saúde porque a gente sabe: beijar muito pode dar sapinho.

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Um pensamento sobre “VIRA A CASACA. E DESVIRA. E VIRA DE NOVO…

  1. Adorei o post, retrato triste e real do q é o futebol atualmente, como queria ter vivido a época em que os jogadores eram identificados c/ um único clube…

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